Três peças curtas

de Paulo Campos dos Reis

 

 

 

 

 

A CHAVE

 

O homem colocou a chave na palma da minha mão e disse: saia rapidamente daqui. Acto contínuo, desatei a correr o mais depressa que pude em direcção a uns arbustos rasteiros que por ali cresciam. Não tinha passado um minuto desde que me arremessara, atabalhoadamente, para o chão, quando, de súbito, o brutal ribombar de uma explosão ecoou no ar. A minha cabeça estava prestes a estalar, mercê de uma lancinante dor de cabeça. A luminosidade proporcionada pela explosão deixou entrever, por segundos, com alguma nitidez, o lugar onde me encontrava: uma planície extensíssima, de terra batida, bordejada, aqui e além, por fiapos de arbustos estéreis. Não longe da linha do horizonte, a lua iniciava o seu moroso ciclo. Levantei-me e comecei a correr na sua direcção. Não sei porquê, sentia-me acometido por um pavor extraordinário. Qualquer coisa que não podia explicar. Olhei para trás e não existia um único indício de ter ocorrido uma explosão no local onde estivera. Quanto ao homem, até hoje, nunca mais o vi.

 

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Terei corrido toda a parte da manhã. Não senti, durante esse período, vontade de comer, beber ou urinar. A minha motivação para chegar a um destino concreto era nula. Todavia, não me sentia bem por estar no meio daquele descampado poeirento e, por isso, corria. A lembrança da explosão e do homem não me intrigava o suficiente para me deter e dispensar um minuto a raciocinar. Deveria continuar. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, a paisagem mudaria. Uma casa, um lago, uma colina, qualquer coisa. As botas, muito cambadas, começavam a dificultar-me o passo. Mancava, já. O vento inexistente, a paisagem igual. Horas nisto. Vencido pela intensa canícula que, entretanto, se instalara, acabei por me obrigar a descansar um pouco. Sentei-me em cima de uma pedra. Ali perto, um escaravelho debatia-se com o transporte de uma bola de esterco ressequida. Dirigia-se, lentamente, para uma zona de arbustos. O suor pingava-me copiosamente da testa e patilhas. Aliviei-o com as costas da mão. Perdi o insecto de vista. Provavelmente encontrou a sua toca. Levantei o olhar e a minha atenção mudou de objecto: a cerca de dois quilómetros, uma vedação em malha de metal, ocupava toda a linha do horizonte. Ali estava, como supus, a mudança. Sentia uma vontade muito objectiva de me dirigir para lá. Os pés já não doíam. À medida que me aproximava, a vedação parecia aumentar em largura e comprimento. Sentia-me sereno. Para lá da vedação o que existiria? O pavor da manhã desvanecera-se. O sol mordia ainda, mas o facto da paisagem ter mudado, digamos que me refrescava o

espírito.

 

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A minha marcha  era, agora, compassada. Tinha a coluna perfeitamente direita, o olhar perpendicular. Aproximava-me, a passadas largas, de uma das entradas da vedação. Duas esquadrias de metal rectangular, que abriam para o interior, com o auxílio de meia dúzia de quícios ferrugentos. Ninguém por perto. Antes de entrar, pensei, mais uma vez, no episódio da explosão. Como interpretar o que o homem me dissera? Porquê, como num sonho, o pavor inexpugnável? Franqueei a entrada. Movia-me uma certa irresponsabilidade. Como nunca antes me acontecera, sentia-me disposto a abandonar quaisquer cautelas. Um homem, vindo de um deserto de terra batida, sapatos cambados, rosto por escanhoar, prestes a entrar num recinto vedado. Ninguém me deteve. Nas minhas costas, a vedação; à minha frente, agora, uma ampla moradia com as paredes caiadas. Um rectângulo branco com uma porta. Ladeava-a um passeio de relva muito verde. Por via de um sistema de irrigação subterrâneo, o terreno adjacente era, constantemente, aspergido por intermitentes leques de água. Se pudesse decidir sobre os meus impulsos, ficaria no mesmo sítio. Não sei se sonhava. Dirigi-me para a porta e rodei a maçaneta. Uma luz muito brilhante, proveniente do interior da casa, obrigou-me a fechar os olhos. Um pequeno corredor desembocava num único compartimento, constituído por quatro paredes

altas. A que estava exactamente em frente era, toda ela, envidraçada. A  montra de uma loja ou um aquário gigante. Atravessei o corredor dando dois ou três passos. Viv’alma. Não existia, no espaço, uma peça de mobiliário. O chão era de taco corrido impecavelmente envernizado. Acerquei-me da parede-janela, olhos semicerrados por causa da claridade, e deparei com aquilo que me pareceu, na altura, ser a imagem mais próxima do paraíso terrestre: estendia-se, para um e para o outro lado da janela, uma praia infinita, ocupada por milhões e milhões e milhões de pessoas muito bonitas e sorridentes. Plácidos lençóis de água azul-ferrete revezavam-se no espelho polido do areal; as pessoas banhavam-se, tranquilas. A luz do dia e a absurda quantidade de figuras conferia àquela visão contornos de irrealidade. Uma

incomensurável manta de retalhos, constituídos pelos padrões multicolores das peças de vestuário e toalhas de praia. Uma ilha a que Ulisses aportasse, repleta de semi-deuses marinhos fruindo horas de ócio. Podia, finalmente, deitar-me um pouco e descansar da caminhada.

 

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Acordei ao final da tarde. A casa continuava vazia. Na montra à minha frente registavam-se alterações de tonalidade e disposição das figuras. O lusco-fusco do entardecer avançava sobre os corpos, cromando-os com o

dourado característico de certas jóias vetustas. Aqui e ali, famílias sacudiam roupa, calçavam sapatos e debandavam, langorosamente, areal acima. No ponto mais distante da praia que se lograva alcançar, a cena repetia-se. Com a debandada, o espaço parecia aumentar. A minha camisa exalava um odor ácido a transpiração. Apressei-me a secar um pequeno arroio de baba pastosa que abria caminho pelo vértice dos lábios. Detive-me um pouco a tentar estabelecer relações  de causa/efeito entre os desgarrados acontecimentos que me tinham levado até ali. Consegui rememorar, com bastante precisão, o que aconteceu antes e depois de determinado episódio. Não fui capaz, todavia, de atribuir um sentido unificador ao conjunto. Porque é que isto aconteceu desta forma, com que objectivo, e em que medida se relaciona com o que aconteceu anteriormente. Soergui-me e desentorpeci as pernas aplicando pequenas massagens na musculatura. Animava-me, de novo, uma imperiosa e inexplicável vontade de prosseguir. Desapertei os dois botões superiores da camisa e avancei na direcção da porta. Para um e para o outro lado, até perder de vista, estendia-se, longitudinal, a vedação. Para lá da vedação, agora, não sei porque artes mágicas, o cenário modificara-se por completo. Não sonhava. Sei-o porque controlo razoavelmente bem os meus sonhos e, perante aquela paisagem, sentia-me impotente. Fechei e abri os olhos várias vezes. Tudo igual. Um cigarro valer-me-ia, naquele instante, para diminuir os crescentes batimentos cardíacos que palpitavam, visíveis, na pele do peito. O deserto desaparecera e, em seu lugar, o friso de uma cidade dantesca enquadrava o horizonte crepuscular.

 

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Um homem fardado encontrava-se no portão da entrada. Devia estar fora do seu posto quando entrei, horas antes. Olhos pequenos e luciluzentes, nariz achatado, de boxeur, a boca sem lábios- um pequeno golpe de navalha. Avancei.

 

HOMEM FARDADO: Onde vai?

EU: Comprar cigarros ao café.

(Durante alguns segundos o HOMEM FARDADO não disse nada. A sua pupila esquerda acusava um acentuado grau de estrabismo. Parecia apontada para alguém que estivesse do meu lado direito. )

HOMEM FARDADO: Ah, claro, apetece-lhe fumar um cigarro.

(A entoação da frase, sem ser pejorativa, escondia outra frase. Senti que não seria conveniente abandonar o recinto.)

EU: Sim.

HOMEM FARDADO: Vou consigo, não se importa?

 

Atravessámos a estrada que acompanhava a vedação. Para trás ficou a casa branca a que nunca mais voltaria.

 

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O café do outro lado da estrada era um buraco insalubre, sem janelas, com um balcão corrido e meia dúzia de mesas. Não havia luz eléctrica de modo que toda  área do estabelecimento se encontrava envolta em penumbra, inviabilizando, deste modo, uma avaliação precisa da sua dimensão. Ao fundo, adivinhava-se um compartimento maior, sem dúvida, a sala de refeições. O homem fardado pousou os cotovelos em cima do balcão e chamou o empregado num tom familiar. Os meus olhos corriam as prateleiras à procura de um maço de cigarros. Envolto numa embalagem vermelha, plastificada, encontrei um exemplar. Apesar de um pouco comida nos cantos, conseguiam decifrar-se, inscritas, as palavras Made in China. Ia deitar-lhe a mão quando, do lado da sala, surgiu a figura do empregado. Não exagero se disser que tinha dois metros e meio de altura. Era praticamente calvo e, debaixo de um conjunto constituído por olhos sumidos, muito azuis, e um nariz pontiagudo, destacava-se a largueza da queixada a amparar a enorme boca cravejada de dentes negros. Tinha uma cicatriz que lhe nascia da base da orelha, descia, a direito, em direcção à clavícula, e desaparecia, depois, sob a camisa.

 

HOMEM FARDADO:  Então? Isso vai ou quê?

EMPREGADO: Menos mal. O que há?

HOMEM FARDADO: Cigarros...

(A sua cabeça acenou na minha direcção. Neste diálogo, mais uma vez, as palavras escondiam, entre os dois homens, um significado oculto. Verifiquei que o maço de cigarros tinha outras pequenas referências reconhecíveis. Além dos habituais avisos sobre os malefícios  do tabaco, podia ler-se, em letras garrafais, o slogan: CIGARROS PARA EMAGRECER.)

EMPREGADO: Está bom. E, para si, o que sai?

 

Os dois homens conversavam como se, entre eles, existisse um grau de parentesco muito próximo. Ao observá-los, experimentava um sentimento de inexplicável revolta  (que não saberei explicar). "Fuga" era a palavra que reverberava intermitentemente na minha cabeça como um reclame eléctrico. Acerquei-me do homem fardado e anunciei-lhe a minha intenção de ir à casa de banho. Objecções não foram colocadas. O empregado desencostou os cotovelos gigantes do balcão e apontou, indolentemente, na direcção das trevas. Para lá me dirigi, não sem algum receio. Depois de lobrigar alguns segundos, encontrei a porta de entrada: tinha uma única letra - W - pintada. Entrei e deparou-se-me o quadro seguinte: um pequeno compartimento de madeira, improvisado para servir o efeito de toilette, dividido em dois sub-compartimentos por um tabique de contraplacado. O cheiro era nauseabundo. Cada divisória tinha, apesar de tudo, além das sanitas, uma enorme janela, com capacidade de abrir para fora. Na divisão da direita, encontrava-se um homem de quem não consigo reter as feições. Por mais que viva, não me esquecerei, todavia, da tarefa minuciosa em que laborava: com um pé apoiado em cima do rebordo da sanita, esticava a pele do pénis e aplicava-lhe pequenos golpes por intermédio de um bisturi. Não se lamentava. Dos ferimentos não parecia resultar sangue algum.

Desviei rapidamente o olhar e entrei na divisão da esquerda. O coração latejava-me debaixo da língua. Destranquei a janela, subi para cima da sanita e, sem pensar em qualquer consequência, venci o caixilho da janela e saltei para o vazio.

 

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Solo firme. À minha frente, em toda a sua decadente espectacularidade, o casario da cidade. Ter-me-ei lançado de uma altura de três metros de modo que sentia uma ligeira dor no tornozelo. Era, praticamente, noite. Os candeeiros públicos emitiam uma luz coada, de cor âmbar, provocando a sensação de insegurança característica dos centros urbanos. Mais uma vez, não tinha nenhum destino concreto para onde seguir. Sabia apenas que deveria desandar do local onde me encontrava. Assim fiz. Calcorreei, durante largas horas, as ruas da cidade. Aqui e além, a sombra disforme e fugaz de alguém  que passa. Nunca perto. Os edifícios, na sua maioria em lento estado de degradação - paredes de cores estioladas, janelas sem cortinas ou com cortinas no fio, portas sem vidros ou com vidros estilhaçados - não tinham qualquer traço arquitectónico reconhecível. Um amontoado de casas de habitação, sem lojas de serviços ou locais públicos. Tudo ao abandono, sem graça, triste e interminável. Perguntas sucessivas atropelavam-se no meu pensamento. Que local é este? Que estou a fazer aqui? E mais perguntas, e mais. Desde manhã, a minha vida tinha sido uma imensa pergunta. O homem? A explosão? A vedação? A casa? A praia? O homem fardado? O café? O homem da casa de banho? Esta cidade? Que sentido para esta sucessão de episódios? O meu corpo desfalecia- o tornozelo queixava-se.  Um ruído despertou, de súbito, a minha atenção. Um vulto indistinto vinha correndo na minha direcção, meio cambaleante, procedente das traseiras de um prédio. Embora a sua figura inspirasse um certo horror, não mexi um músculo para me afastar. Quando já estava suficiente perto, contemplei melhor o sujeito que estava perante os meus olhos incrédulos: um homem com os seus 50 anos de idade, anafado, cara larga e redonda, ligeiramente deformada nas sobrancelhas e queixo, olhos desorbitados e frementes. Tinha, espetados, do começo  da testa à base do crânio, dezenas de pioneses. Dirigiu-se-me:

 

HOMEM: Tenho pioneses na cabeça! Tenho pioneses na cabeça!

 

E, assim como apareceu, afastou-se, numa correria, para o sítio de onde viera. Meti a mão no bolso das calças e, em vez do maço de cigarros que desejava possuir, encontrei a chave que o homem me entregara, no princípio do dia, minutos antes da explosão.

 

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HELDER

 

Ainda irá a tempo de travar? Não. Uma mulher vem, gritando, encostar a face ao limpa pára-brisas do lado do pendura. O cabelo é ruivo; é muito bonita, assim de repente. Prossegue, o veículo, sem governo, pela montra de uma loja de pronto-a-vestir - o grande rectângulo de vidro estilhaça-se numa miríade de pequenas pedras preciosas. O pára-choques marra, finalmente, numa parede mestra e o automóvel imobiliza-se. Pelo chão, espalhados, camisas, calças, casacos, dois manequins estropiados. Pelo ar, fumo. No lugar do condutor, encontra-se, sentado, um homem de cerca de 30 anos idade. A sua cabeça repousa em cima de um balão de tecido branco. Tem os olhos muito abertos e os lábios imóveis num esgar de horror. Chama-se Helder. O seu pé direito pressiona veementemente o travão.

 

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A muitas pessoas acontece o mesmo: na infância, olhar para o tecto do quarto e imaginar o chão o tecto do quarto. Os tectos dos quartos dos hospitais deveriam ter televisões penduradas, de forma a que os pacientes acamados pudessem, sem esforço, entreter a visão. Não é o caso deste; tem, apenas, uma luz fluorescente, branca, ao centro. Os olhos de Helder entretêm-se a procurar teias de aranha nos vértices. Tem a perna direita engessada e dependurada por uma gaze, formando um ângulo obtuso em relação ao tronco. Partiu-a em três sítios- rótula, perónio e metatarso, nomeadamente, no volante, regulador de posição do assento e pedal de travão. Esta informação foi-lhe dispensada pelo seu médico assistente, um homem dos seus 50 anos de idade, completamente calvo, um metro e sessenta e quatro (Dr. Rudolfo); certa manhã, acercando-se do seu leito, brandindo, com ar reprovador, a folha do raio x. Aconselhou-o, depois, mais afável, a frequentar consultas de hidroginástica. Ao tórax do paciente que ocupa a cama contígua à sua está colado um enorme adesivo quadrangular de onde sai um tubo de borracha cor de laranja em direcção a uma garrafa. Quando inspira e expira, a garrafa amplifica-lhe o som lento e aflitivo da respiração.  Na hora da visita, um familiar de um dos pacientes do quarto faz menção de se sentar aos pés da cama de Helder. É uma criança de cerca de cinco anos de idade. Está visivelmente aborrecida por estar ali. Num ângulo, uma aranha captura uma mosca. A criança repara na perícia da aranha- o modo expedito como enleia a mosca num casulo de teia. A mãe, mais afastada, repreende-a: "Sai dos pés da cama do senhor e anda cá já". A criança levanta-se, sorri, afasta-se.

 

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A casa de Helder é um pequeno estúdio situado no centro da cidade. A sala, que faz também as vezes de quarto de dormir, contém apenas uma cama, um sofá e uma escrivaninha. Separa-a da cozinha um tabique em

mogno envernizado. A cozinha está equipada com um frigorífico muito pequeno (de modelo idêntico aos que se usam nas auto-caravanas) e uma placa de fogão sem forno. Não possuiu máquina de lavar roupa- a dois quarteirões existe uma lavandaria municipal.  À noite, luzes apagadas, gosta de se sentar numa cadeira que coloca em frente à janela, a observar o movimento das pessoas lá em baixo, na rua. Mercê da colossal placa de gesso que lhe firma a perna, hoje não lhe será, todavia, possível colocar-se na posição habitual. Estirar-se-á, apenas, no sofá, olhos fechados, a ouvir. Fumará.

 

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A funcionária da secretaria da piscina inscreveu-o numa turma de idosos. No balneário, à medida que se despe, Helder observa, com discrição, o corpo dos colegas. A dificuldade com que desempenham tarefas tão simples como descalçar os sapatos ou vestir os fatos de banho. A lentidão com que o fazem. Helder fecha o cacifo à chave, coloca a pulseirinha de identificação no pulso (muito parecida com uma que usou no hospital), e encaminha-se para o corredor que dá acesso à piscina. Coxeia ainda. As cicatrizes na perna parecem tatuagens de centopeias. O ar do pavilhão é húmido e pesado como o de um país tropical. A respiração torna-se curta e entrecortada, uma névoa de vapor gravita horizontalmente enturvecendo a visão. Ao fundo, perto da parede de

espaldares, divisa-se a pequena piscina circular onde são normalmente ministradas as aulas de natação infantil e fisioterapia. Na piscina principal, um grupo de adolescentes faz concursos de mergulho por entre gritos e frenéticos assobios. Sopra uma grande corrente de ar quando, algures, alguém abre uma porta. Por alguma razão, de súbito, Helder detém-se a meio caminho entre a porta de entrada e a pequena piscina circular onde o fisioterapeuta o aguarda a si e  ao resto da turma. A este meio caminho corresponde o exacto centro geométrico do pavilhão. A consulta está prestes a começar. O fisioterapeuta- porte atlético, carapinha loura e farta a compor uma espécie de auréola em torno de uma grande cara sardenta- desembacia o écran do relógio com uma pincelada do indicador. São horas. Alheio, o grupo dos idosos cavaqueia, espojado em cima de colchões de ginástica. Os adolescentes gritam. A face de Helder está lavada em suor. Como girinos, a suas pupilas registam um frenesim de pequenos movimentos - o olhar, no entanto, fixa, sem focar, um conjunto de coletes de natação fluorescentes. A voz do fisioterapeuta repercute-se pelo pavilhão- "Pode ser, meus senhores?". Helder está numa espécie de intervalo para a realidade da piscina. O que, agora, o detém é a rememoração muito vívida do episódio do acidente. Está ali, em pé, e não está ali. Um chorrilho intermitente de clarões inunda-lhe a retina compondo fragmentos de imagens desgarradas. A saber: uma lua escarlate envolvida num fiapo de nuvens pardacentas, um ponteiro de conta-quilómetros a subir, uma rua de cidade. Um funcionário da piscina repreende os adolescentes: "Mas que banzé vem a ser este? Já chegámos à Madeira ou quê?". Aquietam os jovens. Os idosos, sob veementes insistências do fisioterapeuta, entram na piscina. Na retina de Helder (muito próximos): dois enormes sóis, um semáforo com a luz vermelha acesa, uma mulher muito bonita a gritar. Ofuscado, o círculo negro da íris retrai-se;  o seu pé direito pressiona veementemente um pedal de travão fictício (uma das lajes vermelhas que emolduram a piscina). "Senhor Heeeelder!"- a voz fina do

fisioterapeuta assobia nas paredes altas do pavilhão- parece sair dos lábios vermelhíssimos da mulher. Não pode mais. A chuva de pedras preciosas. Não conseguirá manter o equilíbrio. Fumo. Cai.

 

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É uma mão grande. Os dedos são um pouco mais grossos do que é uso ver nas mulheres, as unhas não estão trabalhadas. É suave, todavia, e muito branca. Está repousada em cima da sua testa. Pertence à cara que se debruça sobre a sua. A simples operação de focagem visual constitui um esforço enorme. É primeiro uma mancha oval e cinzenta, essa cara. É, depois, mais clara e nítida, os contornos de um cabelo longo, fulvo, o castanho claro dos olhos, o pequeno nariz, a boca. "Sente-se bem?". Helder permanece deitado, de barriga para cima, no lajedo da piscina. Atrás da cara de mulher e no plano anterior ao do tecto, à sua volta, acotovelando-se, aos gritos, para espreitar, o círculo de cabeças falantes constituído pelos utentes da piscina: os idosos, os adolescentes, o fisioterapeuta, a funcionária da secretaria e respectivo assistente, os pais dos adolescentes e duas empregadas da limpeza. Helder recobra os sentidos; as cabeças dispersam. O fisioterapeuta e a mulher ajudam-no a sentar-se numa cadeira de plástico. O fisioterapeuta troca umas palavras com a mulher afastando-se, de seguida, para junto dos idosos. A chirinola dos adolescentes regressa ao pavilhão.  A mão da mulher toma-lhe o pulso. Os lábios, "Sente-se melhor?", vermelhíssimos. A cara forma, agora, uma imagem completa; é muito bonita, assim de repente. Por via de uma extraordinária coincidência, a seu lado, sentada, encontra-se a mulher que atropelou.

 

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Vem vindo do lado da janela. Sílvia, chama-se. É professora. Um reclame de neon pisca na seda branca da sua camisa de dormir. Esteve um tempo a espreitar lá para baixo. Depois, correu as cortinas, dirigiu-se à escrivaninha, acendeu um cigarro. Vem vindo, as pernas altas descobertas (na direita, uma tatuagem, uma enorme centopeia, a sua cicatriz), o joelho a flectir sobre o rebordo da cama, a imagem dos seios balançando-se no intervalo do decote. Senta-se, por fim, sobre os lençóis, os pés debaixo das nádegas, o seu olhar no de Helder, sem dizer nada. Depois, uma palavra: adeus.

 

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Tempo.

 

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Noite. Luzes apagadas. Uma cadeira em frente à janela. Helder observa o movimento das pessoas lá em baixo, na rua. Fuma.

 

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MORCEGO

 

Estou a olhar pela janela do escritório. A bandeira da empresa desengoma-se no cimo de um poste. De quarenta e cinco minutos a esta parte, levantar-me-ei, tranquilamente, sob o pretexto de ir à casa de banho. Ausentar-me-ei o tempo necessário- pouco- para alojar uma munição na câmara da mauzer que trago no bolso

interior do casaco. Voltarei com um sorriso sincero e dirigir-me-ei à secretária do senhor director com o objectivo de aferir o montante justo para o meu aumento. Como é habitual, o senhor director olhará para mim não mais do que o tempo necessário. Depois, a sua mão-mercê de um atrofio de pigmentação cutânea, é morena até metade da palma e muito branca de meio da palma até à ponta das falangetas- lobrigará, no fundo da gaveta da sua secretária, a elegantíssima caneta de tinta permanente com que sempre regista tópicos de conversa. Haverá, depois, uma pausa, para dar tempo ao senhor director de, efectivamente, encontrar a caneta

no fundo da gaveta da secretária e, só então, prestar atenção ao meu discurso. Esse tempo morto dar-me-á tempo para avaliar a fotografia da filha do senhor director. É uma imagem captada, certamente, num fim de tarde estival. Ao fundo, divisa-se uma baía muito azul, orlada por uma urbanização de empreendimentos turísticos. O plano enquadrou a filha do senhor director estirada, lateralmente, no pequeno planalto de uma duna, com a mão  no queixo a amparar o peso da cabeça e o cotovelo cravado na areia. Sopraria uma brisa suave a julgar pela madeixa de cabelos que lhe atravessa, oblíqua, a testa.

O senhor director recupera a caneta e será nesse preciso momento que me dispensará um primeiro olhar.

"Então, diga lá". Referir-me-ei, sem rodeios, à iniquidade a que, ao longo destes cinco anos, tenho sido sujeito. Referirei, objectivando, que, ao aumento gradual de expediente que, por iniciativa do senhor director, me tem sido imposto, não tem correspondido qualquer espécie de revisão salarial ou desanuviamento da carga horária. Com efeito, no tocante a este último aspecto, acrescentarei, nomeadamente, que dias há em que sou o último funcionário da empresa a sair das instalações o que, além das muito negativas consequências que este facto opera na minha vida particular- enfim, a impossibilidade de confraternizar com pessoas que me são queridas ou, tão simplesmente, de ter tempo para jantar a horas sensatas- não deve ser, de igual modo, desvalorizada, a sobrecarga de trabalho que constituiu desligar luzes, ar condicionado e componentes informáticos de todos os

gabinetes do edifício da empresa. Não se desse o caso de, entretanto, já ter estabelecido laços de amizade com o segurança que está ao portão, e não acharia divertido, como agora acho, a alcunha com que afectuosamente me baptizou: morcego.  Enquanto não houver pausas no meu discurso, o senhor director manterá o olhar desfocado algures entre o agrafador e o relógio de cristal que mantém em cima da secretária, perto da fotografia da filha. Nas passagens do discurso em que notar, da minha parte, uma mudança no tom de voz, o seu olhar desviar-se-á para a folha de papel branco que tem debaixo da mão, empunhará a linda caneta e abrirá um travessão para resumir, numa frase, o que eu disse. Na passagem da alcunha, depois de escrever morcego, em maiúsculas, MORCEGO, dirigir-me-á o segundo olhar da conversa. Sorrirá sem fazer troça. Um sorriso sem riso, polido, de quem, apesar de não entender, compreende. Pretenderei, depois, caso a situação não se altere com a celeridade que se impõe, anunciar que faço tensões de apresentar, por escrito, a minha demissão. Mas, justamente nesse passo- que considero a pedra de toque da minha argumentação-, a exclusividade do senhor director será resgatada pelas primeiras notas de uma Fuga, de J. S. Bach- o toque de chamada que seleccionou entre a mais de meia centena que o menu do seu telemóvel contempla. Um terceiro olhar, coadjuvado por um trejeito de sobrancelhas, surgirá a pedir desculpas. Acto contínuo, o senhor director afastar-se-á para ao pé da janela, como sempre faz quando fala ao telemóvel, e eu retomarei a análise da fotografia. O sorriso da filha é parecido com o do pai- contido, sem mostrar os dentes. O olhar da filha parece, todavia, menos parcimonioso ou, então, é ilusão causada pela fugacidade própria das fotografias. Talvez o fotógrafo seja alguém muito íntimo da filha do senhor director e isso explique a generosidade do olhar. O senhor director demorar-se-á demasiado tempo na janela, como sempre faz quando ao telemóvel, e eu já terei concluído outras coisas sobre a fotografia da sua filha. Doravante, no entanto, o meu plano estará em marcha. Levarei a mão ao bolso interior do casaco para me certificar de que o trinco de segurança da mauzer está desactivado. Não estarei nervoso o suficiente para agir irreflectidamente. Esperarei que o senhor director termine a chamada, venha, pela quinta e última vez, dispensar-me o seu valioso olhar, sentar-se, eventualmente recarregar o tinteiro da caneta. Só depois, tranquilo, agirei. Enquanto isso não acontecer, estarei, todavia, a olhar pela janela do escritório. Quarenta e cinco minutos.

 

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